Travessia King Kong

Plano para os próximos 5 dias: fazer uma travessia na Serra do Mar Paranaense envolvendo caminhadas brutais de aproximação e grandes e complexas vias de escalada. Previsão de saída: sexta no final da tarde. Previsão do tempo: temporal sexta no final da tarde. "Chuvitiba" sempre tentando nos afastar das montanhas.

Para entendermos essa história devemos voltar um pouco no tempo. No início do ano nosso parceiro Val (Valdesir Machado) quebrou a mão e ficou 8 meses afastado da ponta da corda. Durante o inverno, eu e o Willian Lacerda realizamos uma travessia que pareceria uma loucura um tempo atrás e que consistia em escalar duas vias na montanha chamada Ferraria. O problema era que essas vias estavam separadas por um vale vertical gigantesco que não conhecíamos, além de serem vias de alta dificuldade e que somavam quase 1000 metros de escalada. Gastamos 50 horas para realizar a Travessia Velha Raposa e achamos que o inverno estava ganho. Mas nossas mentes inquietas não param... sempre tem um "e se...". Desta maneira, surgiu a ideia de juntar uma outra escalada a essa e fazer a mega travessia. No papel é tudo simples, basta rascunhar. Já a prática é feita de mudança de planos. Ah, e já estava me esquecendo, tínhamos de esperar a mão do Val melhorar também...

Calendários alinhados, encontramo-nos no dia 24 de agosto na empresa do Val. Lá fora 20mm de chuva e dentro, nós quatro (Ed, Val, Willian e Gabriel Tarso) empenhados em reconstruir o drone que precisou de reparo. Afinal, não poderíamos ir para uma aventura dessas sem o Dronaldo Jr. e um grande filmmaker para a registrar!

Resolvemos alterar nossa partida, pois com a chuva a parede molharia, mas se minha matemática estivesse certa, como a serra estava bem seca, em um dia secaria. Iniciamos a caminhada de aproximação para o nosso primeiro objetivo, a via 3 Chapas, no Ibitirati, no sábado pela manhã com o sol rompendo a barreira de nuvens. A trilha parte da ponte quebrada do Rio Cotia, que é um dos mais bonitos e preservados da Serra do Mar Paranaense, seguindo seu leito ou suas margens até um momento em que sobe em direção à montanha que faz parte do conjunto do Pico do Paraná. Depois de umas duas horas de trilha pesada, o caminho se torna um suplício, pois o violão que levo pendurado em minha mochila enrosca em tudo. Não é fácil ser músico e escalador. Depois de mais de 5 horas de caminhada atingimos a base da via e nos restava apenas duas horas de luz. A parede estava úmida em muitos pontos, pois a água se acumula na vegetação, e no Paraná sempre tem muitas plantinhas nas montanhas. Tentamos achar um lugar plano na base da parede para passarmos a noite, mas era tudo inclinado, de maneira que resolvemos escalar a via à noite mesmo e dormir no topo da montanha. Assim não sairíamos muito do cronograma.

Willian iniciou a escalada, em seguida guiei mais um esticão, aí anoiteceu. O Val, testando sua super tala de neoprene que protegia a mão recentemente recuperada de uma grave lesão, teve de negociar com uma chaminé encharcada. Sucessivamente, fomos vencendo cada trecho daquela linda e exigente via de escalada de aproximadamente 400 metros de extensão. Atingimos o topo sob a luz da lua, mas o final da via não é o cume da montanha e ainda nos restava um trecho duro de caminhada sem trilha. Fomos revezando a dianteira para atravessar aquele mar de vegetação que não era muito alta, mas extremamente rígida e difícil de transpor. De repente chegamos a um local com uma florestinha e um chão de 5 metros quadrados relativamente plano e todo mundo pensou o mesmo: vamos dormir aqui! Enquanto uns faziam a janta, outros realizavam a terraplanagem e a montagem das nossas barracas super leves. Como a travessia era longa resolvemos levar barracas para podermos descansar bem e ficarmos mais protegidos do frio. E ponha frio nisso. A temperatura lá em cima estava abaixo de zero grau. Só a cachaça pra esquentar enquanto esperávamos a janta.

Dormimos bem e acordamos com o sol brilhando. O café foi mágico - tomar café na montanha com o clima dando mostras que vai estabilizar foi incrível. Eu e o Tarso fizemos um som com o ukulele e uma gaita, enquanto os percussionistas batucavam nas panelas. Não nos apressamos, pois gastaríamos esse dia inteiro para atravessar do cume do Ibitirati até a base da via Musguenta, no Ferraria. Tava tudo no plano e o fato de escalarmos à noite nos devolveu à programação inicial. Cume do Ibitirati, desce, cume do União, desce, cume do Pico do Paraná, a mais alta montanha da região sul do Brasil, desce até o colo com a montanha chamada Caratuva. Neste ponto a vontade é de chorar, pois saímos da trilha boa de caminhar e adentramos a mata fechada, cheia de cipós. Vamos negociando com cachoeiras e descidas extremamente íngremes, por sorte sem precisar fazer rapéis, até atingirmos o vale do Rio Cotia, aquele em que iniciamos a aproximação. Nossos corpos sentem a atividade do dia anterior que foi muito intensa e a marcha não é das mais ágeis. Paramos várias vezes e nos alimentamos bem. Quando a noite se fez presente nos encontramos buscando as fitas refletivas da trilha que leva à base da via Musguenta, no Ferraria. Paramos no ponto de água para encher nossas garrafas, mas não tinha água corrente. Subimos acompanhando o leito seco por alguns minutos até achar uma poça. Captamos muitos litros de água o que deixou as mochilas bem pesadas. Depois da água a trilha torna-se quase uma escalada de tão vertical e os mais jovens revezavam-se na dianteira disputando quem teria o melhor preparo físico. Eu e o Val, que já somos quase idosos, não conseguíamos acompanhá-los e fomos ficando para trás. Chegou um ponto em que paramos para descansar, pois pensamos estar longe da base da via. Batemos um papo, comemos algo, tomamos um suco, fumamos um 'paiero'. Quando retornamos à marcha, caminhamos dois minutos e chegamos no local de acampamento. Nossos parceiros falaram que até estavam escutando a gente conversar de tão perto que estávamos. Rimos e iniciamos a organização dos equipamentos; estiquei uma fita e pendurei os friends, fitas, costurasmosquetões, jumares, cadeirinhas, capacetes, cordas... enfim, um sem fim que equipamentos. O Willian foi preparando o miojo, o Val montando barraca e o Tarso registrando tudo. Na montanha é assim
mesmo, o trampo nunca acaba.

Acordamos recuperados, não estava tão frio e o ponto de acampamento é extremamente confortável, com o chão macio e bem plano. Café, carrega tudo nas costas e parte pra cima. A via Musguenta, certamente era a mais exigente das 3 vias da travessia, pois apresentava trechos em artificial bem trabalhoso e passagens um pouco expostas. Deixamos o nosso filmmaker guiar o primeiro esticão. Foi tenso. No final, ao invés de ir pela rocha, ele "garrô o mato" e partiu pra cima! Guiei o segundo e terceiro esticões e me autoxinguei de ter batido as chapas tão distantes quando abrimos a via. Todavia, as condições eram boas: sol, rocha seca e drone no ar. Vencemos os 3 primeiros esticões de corda pela rampa e chegamos ao mega platô do meio da via. Neste ponto a escalada se torna mais vertical. No meio da tarde, sentamos numa bela plataforma no pé do trecho mais demorado e vertical da rota e, enquanto nosso herói Willian se divertia com micro stoppers num trecho de escalada artificial, a gente
tocava Zé Ramalho, curtindo o visual. Para variar, a noite nos surpreendeu no final da via. Depois de finalizarmos a escalada, levamos um tempo até conseguirmos colocar tudo nas mochilas e partimos para procurar o caminho pelo labirinto de blocos de pedras e fendas que se forma no topo deste ombro da montanha. Depois de uns vai e vens chegamos ao ponto de acampamento. Estava frio e úmido, mas o lugar era protegido do vento e plano. Ficamos para fora das barracas só o tempo suficiente para prepararmos o miojo. Quase morremos de desespero porque ali naquele ponto não tinha sinal de internet...

Acordamos um pouco destruídos. Tinha muita neblina e umidade, o que gerava uma grande preocupação, pois deveríamos descer uma grota, usando muitos rapéis e depois escalar mais uma via de 500 metros. A partir do acampamento, caminhamos menos de meia hora e já chegamos ao ponto de descida. Olhando para baixo não se via nada, pois a neblina era espessa. Jogamos as cordas e fui na frente, pois conhecia o terreno, ou melhor, o buraco. Entre rapéis feitos em árvores e à medida que descíamos, a grota tornava-se um rio. Com 3 horas nesse ambiente úmido, nós e as cordas chegamos à base da via Deus e o Diabo completamente encharcados. O problema é que a rocha também estava úmida, impossível de ser escalada. Por um momento vi nosso projeto ir por água abaixo, literalmente. Fizemos as contas, tínhamos pouquíssima comida, poderíamos passar a noite ali, esperando que no outro dia a parede estivesse seca, mas ficaríamos sem comer depois da escalada. Não tínhamos o que fazer, ou melhor, poderíamos fazer café e rezar para o sol aparecer um pouco e secar a parede. O tempo não era nosso aliado, os minutos foram se sucedendo e nada de secar. Porém, de repente, abriu-se o céu, o sol atravessou por uns instantes o bloqueio, ventou um pouco e a textura da rocha ficou aceitável.

O Willian se amarrou e iniciou o baile. Os primeiros 4 esticões de rampa sucederam-se rapidamente, apesar das patinadas; enquanto um guiava, os outros subiam com ascensores pela corda fixa, levando a carga. Escalávamos no meio das nuvens e com muita preocupação pela manutenção do clima sem chuvas. Qualquer garoa forçaria a nossa retirada. Todavia quando chegamos ao sétimo esticão as coisas mudaram, pois ficamos acima das nuvens. Foi como passar do inferno para o céu em apenas alguns metros. O horizonte se desvendava à nossa frente e apesar no cansaço que nos acometia, estávamos radiantes. Guiei a sétima e a oitava e estava no platô esperando meus parceiros, de repente vi o Val rolando pela parede porque tinha esquecido de tirar o pé do estribo num controle de pêndulo. Affff! Chegou até mim meio dolorido, mas assumiu a ponta da corda para nos guiar pelos últimos esticões. Quando o parceiro estava começando o décimo esticão olhei para trás e não pude acreditar no que estava vendo: a lua nascendo avermelhada sobre o mar de nuvens. Foi uma das imagens mais bonitas que já presenciei nas montanhas. O que as câmeras registraram não chega nem a um terço da beleza real, foi extasiante. Claro que chegamos à noite no final da escalada e já partimos para o topo do Ferraria, pois lá seria o nosso acampamento. Nem precisa falar que o miojo acabara, bem como as bolachas e a cachaça. Não aguentamos por muito tempo acordados e desmaiamos.

O quinto dia amanheceu como era de se esperar: sol nascendo sobre o mar de nuvens. Vimos o início de um novo dia com café na mão e um visual incrível do Pico do Paraná, brotando como se fosse uma ilha no meio do mar. Fizemos um som no cume e iniciamos a descida pela Crista Leste. Depois de termos quase morrido de frio durante quatro dias, no quinto torramos no sol. Coisas da Serra do Mar Paranaense, aonde sempre a situação pode mudar em instantes. Pegamos o carro e chegamos em São João da Graciosa todos rasgados, machucados, sujos, fedidos e com cara de palmiteiros. Enchemos a pança de pastel e nos inserimos novamente na matrix. Guardamos vívidos aqueles momentos intensos de contato com a natureza intocada e de companheirismo extremo que as montanhas nos proporcionaram. Valeu, parceiros! :)

 

Ed Padilha

Atleta de Escalada e Diretor Conquista Montanhismo