Travessia da Serra Fina em um dia

Quando você planeja um desafio, você se volta nos dias que o antecedem. Tira um espaço de tempo para ler sobre o lugar, as experiências, verificar se todo o equipamento está de acordo (roupa, tênis, relógio, gps...), estudar clima e terreno, preparar a logística, alimentação, entre muitos outros pontos que são importantes para o destino escolhido.

No dia 30/03, sexta-feira Santa, resolvi fazer a travessia da Serra Fina, Serra da Mantiqueira - Passa Quatro (MG). Considerada uma travessia bem difícil, em termos técnicos de terreno, clima e orientação, motivos estes, que fizeram eu me sentir muito atraída.
Já conhecia um trecho da travessia, em uma prova que realizei em 2014 e em alguns treinos. Somente tinha uma vaga lembrança do Capim Amarelo e do Quartzito (imagem clássica da trilha passando pela crista).

Semana de travessia, tudo pronto. Vestuário: ok. Nos primeiros socorros a atenção era maior. Como sou alérgica a alguns componentes químicos eu me atento as minhas necessidades. O básico: rolo de atadura, gase, luva, pinça, bandaid, esparadrapo e meus remédios para qualquer tipo de ocorrência.

Alimentação: de acordo com o meu gosto, sou mais de alimentos salgados, mas sempre levo alguns doces, géis exceed, bcaa, cápsulas de sal, balas de goma stinger, nuun pastilhas efervescente repositores eletrolíticos.
O maior desafio planejado era realizar a travessia em aproximadamente 16h, em um trecho de 32km, que habitualmente dura uns dois, três dias.
Chegou o dia! Quinta-feira, rumo a Passa Quatro. Todo minuto agora era focado neste desafio. Chegamos na cidade -eu e Sidney Togumi-, fomos almoçar e encontrar nosso amigo Paulo Lamin, rendendo uma tarde de conversa com café. Paulinho era a pessoa que nos levaria ao ponto de partida e também nos resgataria em Itamonte, ele sabia de todos os horários previstos, nos Picos.
Última passada no supermercado e hora de descansar. Ficamos hospedados na Pousada Maria Manhã, cheguei até a ficar em dúvida se seguia travessia ou ficava por ali, hahaha. Brincadeiras à parte, falo isso porque a pousada é super confortável e linda, além de termos sido muito bem recepcionados.
 
 
 
Últimos ajustes, mochila carregada, roupa separada, hora de dormir pelo menos umas 4 horas para poder levantar às 2h da manhã.
2:30am, passamos na casa do Paulinho, que sai com uma garrafa de café, rumo a Toca do Lobo, nosso local de partida. Lá fora tudo escuro, o clima de montanha já me fazia estar de corta vento, a neblina intensa ia diminuindo conforme o ganho de altitude. A estrada nos permitiu ir de carro somente até o Refúgio Serra Fina, ali desci do carro, liguei minha headlamp, coloquei a mochila, dei uma abraço no Paulinho e disse: "nos vemos em Itamonte". A partir deste ponto era eu, Togumi, a Mantiqueira e nossa determinação.

Começamos por um estradão, trotando um pouco para esquentar o corpo, era 3:30am. Passamos por algumas pessoas que acampavam e outro grupo super animado ao redor de uma fogueira. A estrada logo desapareceu e começou um trecho de single track, ouvíamos barulho de água. Pronto. Toca do Lobo, local onde começa a trilha. Para entrar na mata fechada, é preciso atravessar um rio de água muito gelada, mas pulando de pedra em pedra, não é preciso se molhar. Primeiro ponto de captação de água. A travessia da Serra Fina além de ser desafiadora, tem um fator limitante, pois não dá muita opção de locais para abastecimento de água. Passamos pelo rio, agora era só subida rumo ao Quartzito, em uma trilha de mata fechada que nos protegia do frio. Logo a vegetação se descaracteriza e dava espaço para um cenário de montanha: vegetação mais rasteira e pedras. Minha companhia era uma linda noite de lua cheia, um céu estrelado, e bem ao longe algumas luzes das cidades. Somente o silêncio e o ritmo das passadas se faziam presentes. Em uma trilha bem marcada chegamos ao primeiro ponto de referência para parada. Neste local, não havia uma visão nítida do lindo cenário de trilha sob a crista, tradicional quando se fala em Serra Fina. Cogitei esperar um pouco, faltava 1:30h para amanhecer, mas não quis perder tempo então segui em direção ao Capim Amarelo, primeiro cume da travessia. Cada passo que seguia, a imagem da crista se fazia presente como lembrança de outras vindas a região. Nunca havia passado neste trecho na escuridão, o que me trouxe uma grande emoção e frio na barriga. A vegetação começa a mudar novamente e dar espaço aos capins e grandes tufos. Como ainda era madrugada, com a noite fria e úmida os capins estavam molhados de orvalho, o que nos deixou também molhados dos pés a cabeça. Por volta de 4:30h a lua começou a dar um show, com uma coloração alaranjada, no infinito dá seu adeus. Do lado oposto depois de alguns minutos, cores surgiam em meio ao contorno das montanhas agora mais aparentes. Comecei a ter noção do que tinha ao meu redor. Um novo dia vinha surgindo. Passamos por algumas áreas de camping, bem sinalizadas. Muitos campos de bromélias, trechos de corda e escada, feitos para preservação e conservação do local. E o Frio? Começou a esfriar muito pelo horário mas não queria parar, me alimentava e hidratava caminhando. Ganhei bastante altitude, em meio a muito capim, em uma subida intensa. Com 2:50h de atividade, chegamos ao primeiro livro de cume, no topo do Capim Amarelo. Paramos por um tempo e a luz do dia já clareava a manhã. Agora com mais nitidez, as cadeias de montanhas me encantavam com sua beleza. A partir deste trecho era tudo novo para mim. Olho para trás e em meio a alguns raios solares avisto Marins (outra grande cadeia de montanha que faz parte da Travessia Transmantiqueira). Como é bonito tudo isso, fico agradecida por poder viver esse momento.

 
 
 

Próxima parada: Pedra da Mina! A travessia é um sobe e desce constante, entre os principais cumes, outros falsos cumes deveriam ser feitos. Havia uma descida intensa, muitos trechos em pedra e alguns bambus. Passo por outra área de camping, chamada Maracanã, onde haviam mais barracas e alguns trilheiros tomando seu café. Chegamos a um falso cume, vejo um vale e lá no fundo a temida Pedra da Mina. Descemos por entre platôs de Pedra, me perco em uma descida, mas logo me localizo. A travessia até este trecho é muito bem marcada, mas o que me guiava era um aparelho de gps. O terreno começou a ficar mais encharcado, água brotando do chão em uma riqueza sem explicação. Lama preta e a roupa ainda molhada.

Chegamos a um riacho, ponto de abastecimento, tiro minhas garrafinhas, encho de água, tomo alguns suplementos. A água era gelada e cristalina. Subindo mais um pouco, olho para frente e vejo o que nos espera, uma subida bem íngreme para chegar ao topo. Chegamos ao cume da Pedra da Mina as 11:00h, o tempo começou com sol, mas estava ficando um pouco nublado. Sento perto do livro, abro a caixa de metal e deixo uma pequena mensagem registrada. Olho ao me redor e fico sem explicação. Dois meninos e um simpático cachorro surgem vindo pelo Paiolinho. O vento estava muito forte, não conseguia ficar por muito tempo parada em um lugar. No cume há espaços para montar barracas e umas pedras foram colocadas para poder desviar o vento. As nuvens começavam a cobrir ainda mais o céu azul.
 
 
 

Chegando ao final do cume, vejo todo o Vale do Ruah. Deveríamos percorrer uma longa descida sobre pedras para chegar até ele. O Vale sempre foi um dos lugares da minha lista de "para conhecer". A visão de cima dava a impressão de uma vegetação rasteira, mas quando se chegava ao Vale, a região cheia de capim alto e brejo era o que nos esperava. Ali me perguntei para onde eu vou? Como andar por este trecho? Era um labirinto! Comecei a andar por um descampado em meio a muita água, meus pés já bem molhados, não iam ter tempo para secar. O capim me cobria inteira, me agarrava, dificultando muito a locomoção, além disso, cortava as regiões que não estavam protegidas. O Vale do Ruah é considerado o lugar mais frio da região. Não havia trilha, o que nos guiava era o rio, sempre a nossa esquerda. De vez em quando nos comunicávamos, perguntando sempre um ao outro, como estava se sentindo. Minha cabeça não parava de pensar na loucura que estávamos fazendo e como era fácil me perder naquela região. Usar o braço e as mãos para afastar os capins era fundamental, até brinquei que o capim me amava porque vira e mexe ele me prendia e eu não conseguia me soltar. Mas, que região linda e complicada em questão de leitura de terreno, e pronto, tínhamos mais um trecho realizado, olho e vejo o imenso vale de capim e ao fundo a Pedra da Mina. Nos despedimos subindo um falso cume, rumo ao Pico dos Três Estados. E aí subimos por entre pedras, escalando algumas vezes, um pé aqui, outro ali...

Não lembro exatamente em qual trecho, mas fiquei um tanto receosa pois tenho medo de altura. Percorríamos um platô de pedra e de um lado havia um enorme precipício, nesta hora caminhei lentamente, minha feição havia mudado, o que chamou a atenção do Togumi. Ele voltou, segurou firme minha mão, não disse nada, já conhecendo o motivo e assim seguimos. Chegamos ao Cupim do Boi, precisei sentar um pouco para me alimentar. Tentamos contato com o Paulinho para avisar onde estávamos e nada de sinal. Entre montanhas e bem distante, no verde da mata, um arco íris se fazia presente em meio a tanta beleza. Logo levantamos, precisávamos caminhar, pois o tempo era curto e as nuvens começavam a avançar com rapidez. Descendo, olhava por toda a região e não entendia muito do caminho que estava percorrendo. Entramos em um bambuzal, olhei para um lado e achei uma fita, Togumi olhava no GPS e seguíamos. A trilha um pouco mais fechada dificultava nossa orientação. Um tempo depois me viro e falo: "Togumi, já passamos por aqui!" Ele estava com esse mesmo pressentimento. Tentamos voltar e chegamos ao local que havíamos parado anteriormente para comer. Nos olhamos tentando lembrar de onde tínhamos vindo. Avistei um totem, seguimos, e novamente não chegamos a lugar nenhum! Tentamos um outro caminho e chegamos ao bambuzal novamente, desorientados. Resolvemos voltar. Nesta hora a tarde já ia se despedindo e eu não me sentia mais segura. Via na feição de Togumi que estava inconformado em não achar o caminho. Não se comunicava mais, e para não gerar stress o deixei pensar. Me sentei no lugar que havia parado para comer pela terceira vez, agora já escuro. Togumi vira e fala: "Me espera aqui, que eu já volto". Fiquei entre pensamentos, observando tudo ao meu redor. Não sentia medo por estar na imensidão da Serra, prefiro ali do que os centros urbanos. Coloco o corta vento novamente, pois a temperatura já começou a baixar e o vento soprava forte. De repente escuto alguns pingos -e eu ainda não havia me secado totalmente das passagens pelos capins-. A chuva veio -vesti minha anorak- junto com uma neblina. Minha preocupação estava em nível hard. Togumi apareceu e ficou andando de um lado para outro. Observando seu movimento comecei a entrar em desespero, pois atrás do platô só havia um precipício. Nervosa, me viro e falo: "Para! Para de andar por ai! Você está sem visibilidade!" Comecei a chorar, não queria que nada acontecesse conosco. Não queria passar a noite, queria sair dali. Resolvemos seguir em meio ao mato, sem trilha, sem saber para onde íamos, com a chuva caindo e rasgando o mato! O frio aumentou e eu só queria me abrigar. Cogitei voltar para o bambuzal, pois lá era quente, o que nos protegeria de frio e vento. Pensava em ficar por ali e esperar amanhecer, mas nem o bambuzal encontramos mais. Nos abrigamos em uma mata mais fechada. Percebi que a situação estava começando a ficar crítica. Togumi tremia demais, não tinha se protegido da chuva. Nessa hora tirei toda roupa da parte superior de seu corpo, enrolei o cobertor de emergência nele, tirei minhas jaquetas e vesti nele por cima do cobertor. Nada melhorava. Comecei a pensar no meu filho, minha família, amigos, e naquele momento, rapidamente minha vida toda passou em minha cabeça. Entrar em desespero não era a melhor opção, tínhamos um ao outro. Tentei aquecê-lo esfregando minha mão em seu tronco bem rápido. De repente ele fala: "precisamos nos movimentar, ficar parado é a última opção." e eu: "andar para onde?" O GPS estava sem pilha, havíamos esquecido de levar pilhas reserva pra piorar a situação. Inconformada, pensava em nunca mais voltar ali. Respirei fundo e concordei, arrumei tudo, vesti a mochila e a coragem. Bebemos um pouco de água, neste momento não comíamos e nem nos hidratávamos com tanta frequência. Fomos seguindo e chegamos onde? No bendito bambuzal! Nossa única opção era apertar o botão do Spot para enviar uma mensagem de 'estamos bem mas precisamos de ajuda. Nossa localização é..' a contatos cadastrados que fossem necessários na hora de um perrengue. Nesse momento, mandamos para o Wladimir Togumi, mas como saber se ele recebeu?

 
 
 

Por um instante parece que algo nos guiou e começamos a caminhar por trechos que não havíamos passado. Chegamos a um cume e conseguimos sinal de telefone. Ligamos para o Wlad, que recebeu a mensagem e já havia entrado em contato com algumas pessoas da região. Não conseguimos contato direto com o Paulinho, então entramos em contato com amigos pedindo que contassem pra ele sobre o ocorrido. Nesta hora o Wellington, atleta de corrida de montanha de Itamonte havia sido comunicado sobre a situação, ele conhecia muito bem a área. Passamos as coordenadas para ele e o mesmo se dispôs a ir nos encontrar.

Estava aliviada, mas deveria ficar esperando? Resolvemos seguir e tentar a sorte. Os lugares eram diferentes dos que presenciamos umas horas antes. Ufa, encontramos uma área de camping, com três ou quatro barracas. Pedimos por ajuda, um moço nos orientou e disse que estávamos muito longe do Pierre(local de chegada). Nossa orientação era pela trilha que já estava bem marcada e também seguida por totens. O cansaço era muito aparente. Enfim chegamos ao Pico dos Três Estados, agradeci por aquele momento. A preocupação agora era com minhas mãos, não as sentia mais, inchadas, com muitos cortes.. Avistamos algumas luzes. Continuamos andando, uma força nos guiava. Por uma crista, olhei para o horizonte e vi uma luz que logo sumiu, andando mais um pouco a luz voltava e começava a avançar. Cada vez mais perto, sentei e observei que por entre uma pequena mata Wellington chegava até nós. Foi um alívio, lágrimas corriam, neste momento entreguei a ele toda minha insegurança. Ele nos trouxe uma mochila, com blusa, coca, lanches e água. Nos vestimos com roupas secas e quentes. Era aproximadamente duas da manhã e ainda faltavam 9km em 1:30h de caminhada.

Caramba! Tudo isso ainda? O jeito era seguir logo para acabar. Mas tudo demorava! Descia e logo já tinha outra subida. Não conversava mais, os bambus irritavam, mas as passadas estavam fortes. Minha lanterna ficou sem bateria, então me guiava pela do Togumi. Precisava andar abaixada por causa da trilhas fechadas, minhas costas doíam, cabeça e ombro tensos. O tempo parou por um instante. A caminhada parecia não render. A trilha chegou ao fim, mas ainda teriam mais uns 4 km de estradão de terra. Pensei em tudo o que o Wellington tinha feito para nos encontrar, somente para nos guiar de volta. Atitude digna de uma pessoa iluminada. Passando pelo estradão, sem força nenhuma mais de tanto desgaste físico e psicológico, chegamos ao Pierre, faltava somente um descidão até o asfalto para chegar no carro. Nossas mãos se entrelaçaram e deixamos a energia fluir. Uma mistura de sensações e sentimentos. Olhei para trás, 25h se passaram rapidamente. Agradeci por tudo, desde momentos bons, como os momentos de perrengue.

Aprendi muito nesse dia passando por tudo aquilo. Realmente somos pequenos diante da natureza.
Fabiana Pederzoli