O PARAÍSO PERDIDO NO MEIO DESSE BRASIL

Quando falamos em viajar para lugares com natureza, pensamos logo de cara em Bonito ou Fernando de Noronha. Esquecemos que o Brasil é um lugar com infinitas possibilidades de destinos, alguns bem menos visitados e com preços muito mais acessíveis. Eu sempre tive vontade de conhecer alguns destes lugares. Era um sonho! Um sonho que realizei em maio de 2018,  aproveitei a companhia de uma amiga que veio da Austrália e também queria ir, arrumamos as malas e curtimos muito durante uma semana!

Mas a história que vou contar aqui é da segunda vez que fui para esse lugar (porque foi loucura pura)!

Setembro/2018, recebo uma ligação em plena sexta-feira avisando que eu ganhei uma passagem área que deveria ser usada na semana seguinte. Não pensei duas vezes, na verdade não pensei nem uma vez se quer! “Eu quero voltar pra lá!” era só o que passava na minha cabeça.

Todos estavam trabalhando, ninguém podia viajar comigo. Seria minha primeira viagem sozinha... E o medo? Não sei, porque como eu disse, nem pensei! Peguei o celular correndo, mandei mensagem para o guia que utilizei da última vez: “Wilson, estou indo segunda-feira! Tem vaga na pousada? Me coloca no grupo dos passeios”. Ele, como é de muitas palavras, respondeu: “Tem. Venha!”

Desmarquei os compromissos, entrei no site pra ver as passagens, tudo certo, let’s go!

A conversa com os amigos era: “Mas você vai sozinha, Jessica?” Eu respondia: “Com certeza absoluta vou sozinha e para o mesmo lugar, lá é o paraíso!” Eles: “O que você vai conhecer lá dessa vez?” E eu: “Sei lá! O que o Wilson me mostrar!”

Arrumei a mala de uma hora para outra, peguei o avião, desci no aeroporto pela manhã, o ônibus saía no final da tarde e a chegada ao tão sonhado destino acontecia à noite: CHAPADA DOS VEADEIROS,  aqui estou eu!!!

A cidade base era Alto Paraíso/GO. Wilson, um gentleman, me buscou na rodoviária que era super longe da pousada (cerca de uns 50m), me entregou a chave do quarto e disse: “Amanhã saímos às 6h”. Sim senhor!

Ao deitar a ficha não tinha caído ainda, então bora dormir pra ter um dia seguinte espetacular!

Pela manhã fomos até o ponto de encontro. Eu estava dentro do carro esperando o resto do grupo chegar, quando vi uma caminhonete estacionando. Imediatamente eu pulei pra fora do carro, saí correndo, agarrei a pessoa que estava dirigindo a caminhonete, dei um abraço muito apertado, rindo e gritando no ouvido dele (provavelmente o deixando um pouco surdo também): “Maurilio, você está aqui!” Ao terminar a euforia do nosso reencontro, a nossa volta, o grupo inteiro parado, nos observando com aquelas caras de que não entenderam nada! Foi hilário. Sentimos que uma explicação era necessária: Quando fui em maio, conheci o Maurilio. Ele mora em Formosa e simplesmente ama a Chapada, por isso, vai praticamente todo final de semana pra lá com sua caminhonete, desbravar as trilhas e cachoeiras com o Wilson. Praticamente um nativo. E caso tenha prestado atenção, eu disse que ele vai “todo final de semana” mas era segunda-feira, o que explicou minha surpresa e emoção tão grandes ao reencontrá-lo! Os dois se perguntaram ao mesmo tempo: “o que você está fazendo aqui?”

Subi na caminhonete dele para colocarmos o papo em dia e o comboio seguiu. As cachoeiras que fazemos com guia são as mais afastadas e com certeza as mais bonitas. Normalmente andamos uns 150km para chegar nas trilhas. As paradas são em lugares estratégicos, para ver o nascer do sol ou apenas apreciar a paisagem. Pisando fundo no acelerador, levantamos poeira pra quem estava atrás. Foi cada emoção que o pessoal do banco traseiro estava com os olhos arregalados e as mãos grudadas se segurando onde podiam. Eu só avisei: relaxa galera, o rali está incluso no passeio! Aproveitem!

De repente a caminhonete parou, celular sem área e internet nem pensar! Quando achamos estar no meio do nada, na verdade a aventura estava apenas começando. Era hora de descer, colocar a mochila nas costas e apertar os cadarços. Tinha chão ainda pela frente, mas a partir dali era por nossa conta. Atenção: pernocas ativar! Modo: roots!

O Wilson é guia top que conhece os melhores lugares e nos leva nas melhores cachoeiras, além disso, se preocupa em proteger o lugar e compartilhar seu conhecimento. Em cada roteiro parava, contava sobre a história do lugar, a extensão dos rios e trilhas, falava profundamente sobre a flora e fauna da região, o perigo de extinção enfrentado e como poderíamos fazer o mínimo de impacto ambiental possível, para a preservação dessa maravilha.

A cada cachoeira eu me apaixonava mais pelo lugar. As trilhas guardei pra sempre na memória e no coração. Me desliguei tanto para aproveitar o passeio, que quase não tenho fotos. Gravei cada detalhe em mim, o ar puro, a paisagem, a textura da natureza... Deitar nas pedras, sentir o sol, fechar os olhos e só escutar o barulho das quedas d’água. A água gelada da cachoeira caindo na cabeça e o rio passando pelos meus pés, os infindáveis arco-íris. Só isso e ao mesmo tempo, TUDO ISSO!

Depois de enfrentar os tombinhos e desafios, temos a recompensa merecida: uma vista espetacular e aquele banho de cachoeira! E não vale só o banho, tem que entrar atrás da cachoeira, pular de alturas que você jamais imaginou que conseguiria, ir nas hidros escondidas, e ser empurrada nos tobogãs naturais. Wilson falava: “vamos ficar 2 horas aqui”. E quando parecia ter passado apenas 15 minutos, ele chamava para ir embora. Era tão bom, que a gente nem via o tempo passar.

Que aventura! Precisei trocar a passagem de avião para ficar mais um dia e fazer uma trilha que queria muito. E como se não bastasse tudo isso, sempre íamos para o meio do nada. Chegávamos ao topo do mundo só para ver o pôr-do-sol no Mirante da Janela. E na volta uma trilha noturna recompensada com um brinde de champanhe na lua cheia. Nos outros dias no final das trilhas, sempre tinha nosso "almojanta" em algum lugar perdido por lá com uma comida caseira maravilhosa feita no fogão a lenha. E pra fechar com chave de ouro, um pôr-do-sol espetacular no meio da estrada.

Depois do primeiro dia, o grupo já estava mais do que entrosado. Quando voltávamos das trilhas era só o tempo de tomar banho e já sair para algum lugar. Apelidos começaram a surgir, grupo no WhatsApp. Diversão não faltou. Minha primeira viagem sozinha, mas com companhia 100% do tempo.

Não sei nem dizer qual cachoeira é a mais bonita. Quem puder vá em todas! Tá, talvez seja um pouco difícil ir em todas de uma vez, são inúmeras, mas o quanto puder, vá.

No primeiro dia da minha primeira viagem a Chapada, eu fiz a seguinte pergunta: “Wilson, você nasceu aqui e é guia há muitos anos. Não enjoa de ver a mesma coisa todo dia?” A resposta dele foi uma grande gargalhada seguida de um desafio: “Jessica, no final do dia você vai me responder essa pergunta.” Se eu respondi no final do dia? Não lembro. Acho que a melhor resposta que poderia dar foi voltar no mesmo ano pra lá, na primeira oportunidade que tive.

E como tudo na vida termina, estava na hora de ir embora mais uma vez do paraíso. Sinto saudades. A vontade de ficar era grande. Parti com uma dor no coração, mas com a certeza que tudo dura o tempo necessário para se tornar inesquecível!

 

Jessica Rigatti