Ataque ao Ciririca por cima

O famoso “Véio Ranzinza” ou K2 Paranaense.

Com a proximidade do feriado de 07 de setembro, começamos a pensar em alguma trip para fazer pela Serra do Ibitiraquire. Várias ideias foram surgindo, pensamos em realizar a Travessia das Fazendas (Bolinha x Rio das Pedras), fazer o Ferraria pela Crista Leste, e outras mais. Então, depois de muito conversar definimos a aventura, iríamos fazer o Ciririca por cima, “de ataque”, pegando o maior número de cumes que conseguíssemos e com uma esticada até o Agudo da Cotia. Convidei o Gean que logo topou o plano ousado. No dia 06 de setembro organizamos a logística de equipamentos e suprimentos, definimos o que seria responsabilidade de cada um levar e combinamos de nos encontrar às 22h para começar o ataque.

No horário marcado o Gean me pegou em casa e começamos a nossa jornada, fizemos uma parada estratégica no Posto Túlio e logo depois seguimos até a Fazenda Bolinha, ponto de início da Trip.

00:48h do dia 07 de setembro começamos a subida em direção ao Camapuã, primeiro cume a ser conquistado. Uma noite perfeita, céu estrelado e sem nenhuma nuvem, concordamos que iríamos sem correria, curtindo e aproveitando o visual de cada cume. Com 1h de caminhada chegamos à famosa rampa do Camapuã e com mais 40min conquistamos o nosso primeiro cume. A noite estava realmente incrível e havia ali duas barracas com outros montanhistas dormindo.  Passamos em silêncio para não atrapalhar o sono dos colegas e seguimos em direção ao Tucum, segundo cume da nossa jornada.

Com mais meia hora de pernada conquistamos o cume do Tucum às 02:58h, assinamos o livro de cume e procuramos um lugar para dar uma breve esticada nas pernas. Aqui acho necessário fazer um adendo só para registrar. Eu havia trabalhado até as 18h do dia anterior, consegui ir para casa arrumar a mochila e dormir até às 22:30h mais ou menos, o Gean havia trabalhado até um pouco mais tarde e com outros afazeres não conseguiu descansar antes de começarmos o percurso.

Ficamos uns 40 minutos descansando no Tucum e seguimos em direção ao Cerro Verde, logo após deixar o cume pegamos uma das descidas mais íngremes que já encarei na vida e agradeço muito por ter feito ela na escuridão. Pasme, este montanhista que vos escreve morre de medo de altura! Não curto nem um pouco estar exposto ao risco de cair sem o uso de equipamentos de segurança. Embora bem exposta, fizemos uma descida tranquila até chegar ao fundo do vale que precisaríamos cruzar para atingir o Cerro Verde.

Aqui encontramos nossa primeira “quiçaça”, algumas trilhas bem fechadas em que precisamos ir rasgando mato no peito em vários momentos e depois de uma progressão lenta atingimos o cume do Cerro Verde exatamente às 05h05min da manhã. Estava muito frio, cerca de 2ºC e arrisco dizer que a sensação térmica estava abaixo de 0ºC. Registramos nossa chegada ao cume no livro e procuramos um local para esticar as pernas enquanto aguardamos o nascer do sol.  O Gean que estava sem dormir sentou e apagou! Eu sofri demais com o frio. Mesmo com calça e blusa de segunda-pele x-thermo, luvas x-power da Solo, jaqueta de pluma de ganso, gorro e anorak eu não consegui ficar parado. Precisei ficar me movimentando de um lado a outro para manter o corpo aquecido.

Não foi de todo mal, enquanto sofria com o frio pude contemplar desde o início os primeiros raios de sol ao fundo do Pico Paraná, foi um verdadeiro espetáculo, que incluía lua, estrelas e um sol que vinha surgindo, sem dúvida o nascer do sol mais lindo de toda a minha trajetória até aqui. O Gean dormiu por cerca de uma hora e despertou próximo das 06h para ver o Astro Rei brilhar.

Terminamos de contemplar o nascer do sol e descemos um pouco o cume do Cerro Verde em busca de um local mais abrigado do vento para fazer um café da manhã. Encontramos um local em meio às rochas e esquentamos uma água para fazer o café. Naquele frio o café bem quente e sem açúcar foi uma das melhores bebidas da minha vida, o Gean preferiu tomar um bom chá de maçã, comemos uns ovos cozidos e sanduíches de queijo com salame para ter energia ao longo do dia.

Devidamente alimentados e aquecidos, arrumamos as mochilas e às 07h saímos do Cerro verde em direção ao próximo cume que é o Lua. O dia  amanheceu tão lindo quanto a noite anterior, podíamos avistar praticamente todas as montanhas que compõem a Serra do Ibitiraquire inclusive o imponente Ciririca que até então seria o penúltimo cume do nosso ataque.

Do Cerro Verde para o Lua foi uma das travessias mais “truncadas”, precisamos vencer um vale com trilhas bem técnicas, por vários momentos de mata bem fechada e com extrema atenção ao chão, eram muitas “gretas” por vezes escondidas durante todo o trajeto. Demoramos 01:38h do cume do Cerro Verde ao Cume do Lua. O próximo cume a ser conquista foi o Luar, uma travessia bem curtinha de pouco menos de 30 minutos.

Chegamos ao cume do Luar às 09:05h, assinamos o livro de cume e comemos um sanduíche por ali, não sei dizer exatamente como aconteceu, mas ali o meu “disjuntor caiu”!  Lembro-me de ter sentado para assinar o livro de cume, comi um sanduba e apaguei. Como não havia conseguido dormir no Cerro verde devido ao frio, ali o corpo achou um lugar aconchegante para repor as energias.

Dormi aproximadamente quarenta minutos e partimos pelas planícies de altitude até o Siri. Nesse caminho passamos por lugares lindos, uma das vistas mais bonitas do Pico Paraná e litoral na minha modesta opinião. Visualizei um excelente local para camping e quero programar um retorno para dormir e contemplar um nascer do sol daquele lugar. Saindo do Siri precisávamos encontrar a trilha para descer o vale, ali não sabemos o que aconteceu com o GPS, ele nos mandava ir o tempo todo para uma trilha a esquerda que não levava a lugar nenhum. Analisando o percurso vimos que precisávamos ir à direção contrária a que o GPS dizia, começamos a varar mato no peito mais uma vez e depois de uns 20 minutos reencontramos o caminho correto. Estávamos no fundo do vale novamente e ali caminhamos um bom tempo cruzando o rio por diversas vezes. Passamos por algumas fitas da travessia Alpha Crucis e às 12:30h chegamos ao ponto conhecido como “Última Chance”, tem este nome, pois é o ultimo ponto de coleta de água seguro antes do cume do Ciririca.

Ali resolvemos parar para almoçar, o Gean queria estrear seu novo conjunto de cozinha composto pelo Fogareiro Azteq Spark, Panela Sea To Summit X-Pot e Colher de Cabo Longo Delta Sea To Summit. Havíamos levado macarrão, linguiça, bacon e eu tinha uma surpresa na mochila. Levei uma coca-cola de 1L escondida, enquanto cozinhava o almoço a deixamos gelando na água do rio, algo que despertou a cobiça dos outros montanhistas que ali estavam, hahaha!

Depois de alimentados e descansados era hora de começar a subir o Ciririca, iniciamos às 13:40h nossa ascensão ao penúltimo cume do circuito. O início da subida é bem íngreme e com vegetação alta -que nos abrigava do sol- depois de 30 minutos atingimos a famosa Rampa do Ciririca. Chegando neste ponto meus amigos, não dava nem para imaginar o frio que havia feito na madrugada! Ali tínhamos praticamente um sol para cada nos castigando até o cume. A fama da rampa não é por acaso, realmente uma subida íngreme e desgastante com alguns lances de corda para auxiliar na ascensão, mas nada de muita exposição.

Finalmente às 14:55h atingimos o ponto mais alto do Ciririca, estávamos no cume! Sensação indescritível, uma visão em 360º da nossa Serra do Mar, litoral, realmente fantástico! Depois de curtir um pouco o visual, caminhamos até as placas e paramos para descansar no inicio da trilha que desce até os agudos. Neste momento começamos a calcular o tempo que levaríamos para ir até o Agudo da Cotia e retornar, falei ao Gean que se ele estivesse muito afim nós iríamos, porém eu não estava confortável em continuar caminhando por mais uma madrugada, afinal a pernada de retorno até a Fazenda Bolinha ainda era grande. Pensamos alguns minutos e então concordamos que deixaríamos o Agudo para outro dia. No estado que estávamos de cansaço iríamos aumentar em umas 4h o nosso “passeio”. Mais tarde agradecemos muito por essa acertada decisão.

Depois de descansar e curtir o visual que o Ciririca nos proporcionou, às 16:08h iniciamos o nosso retorno para a Fazenda Bolinha, dessa vez fomos pelo “caminho de baixo”.  Vale lembrar que começamos a caminhar 00:48h, ou seja, estávamos em atividade a pouco mais de 15h.

Descemos o Ciririca em um bom ritmo, recarregamos a água na Última Chance e seguimos o caminho por baixo. Como nunca tinha feito este trecho, mal sabia o que me esperava. Um sobe e desce sem parar, trechos muito técnicos, cheio de raízes, escalaminhadas curtas e rochas escorregadias.

Quando você conquista uma montanha, a maioria das pessoas pensa que o retorno é a parte mais tranquila, afinal é “só descida”. Ledo engano, além de a descida judiar muito da musculatura, no caso do retorno do Ciririca temos um sobe e desce incessante, como o terreno não permite uma progressão rápida, nós olhávamos o GPS e parecia que não saíamos mais do lugar.

Por volta das 18h estávamos próximos a Cachoeira do Professor, já estávamos com pouca energia e a brincadeira começava a ficar sem graça. Doía o pé, joelhos, lombar e tudo mais que se possa imaginar, estávamos num ritmo do tipo “só geme e anda” haha.  Dali para frente à caminhada começou a ficar ainda mais difícil, um pouco pelo cansaço extremo que já estávamos e a partir de agora teríamos um bom desnível positivo para vencer, era subida que não acabava mais. Depois de um bom trecho nos deparamos com um ponto de corda em uma parede quase vertical. Eu estava muito cansado, o Gean seguia na mesma vibe, olhamos o Track e vimos que havia uma rota para desviar a corda e não pensamos duas vezes, fizemos uma volta e subimos por um caminho alternativo, íngreme mas sem a necessidade de cordas.

Dali pra frente só sonhávamos com a chegada, tomar uma coca-cola gelada e trocar as roupas sujas. Caminhamos num ritmo bem lento e às 20:50h chegamos na placa que marca a bifurcação das trilhas pra quem sobe (Camapuã, Tucum, Ciririca ou Pedra Branca). Ponto também conhecido como “Graças a Deus” por quem retorna do Ciririca!

Ali como sabíamos que estávamos bem perto parece que tomamos uma dose extra de gás, apertamos o passo na medida do possível e às 21:23h chegamos a Fazenda Bolinha, finalizando assim o nosso circuito em aproximadamente 20h.

Sem dúvida foi o ataque mais puxado do qual já participei, saí de lá prometendo que ficaria um bom tempo sem repetir, hoje que a temporada de montanha já terminou, estamos loucos procurando uma janela no tempo para poder fazer tudo de novo, loucuras de montanhistas!

Pablo Dantas

Gerente da Território Vicente Machado

Mergulhador, Montanhista e Trail Runner.