Alegrias, dores e aprendizados numa travessia de 200km de caiaque

No final do mês de Junho, após uma palestra que fiz sobre a minha experiência de atravessar o Parque Indígena do Xingu de caiaque (25 dias de expedição e 420 Km de remada) com o projeto Expedição Xingu, recebi o convite para participar de uma expedição inédita para uma travessia entre Iguape/SP até Morretes/PR de caiaque oceânico, com 200 km de distância e 7 dias de duração.

O roteiro passaria ao longo de toda Ilha Comprida, Ilha do Cardoso, Ilha de Superagui, entrando na Baía de Paranaguá, passando pela Ilha das Peças, Ilha das Cobras, Ilha do Teixeira e chegada no Iate Clube de Morretes. Para quem não conhece a região, o roteiro passaria por uma das principais áreas contínuas de mata atlântica do país entre São Paulo e Paraná na Região de Cananéia, Parque Estadual do Cardoso e a Região de Guaraqueçaba, área de várias espécies de fauna e flora, além de um grande berçário de botos (vimos mais de 80 em toda travessia).

Para contextualizar, faziam 3 anos que eu não remava e a equipe que estaria indo, era formada por 4 canoístas ativos, sendo um deles, profissional de corredeira com experiências em vários esportes outdoor e colunista de um dos maiores portais de aventura da América Latina.

Um desafio e tanto; Fiquei bem atentado em ir e ao mesmo tempo, receoso de encarar, mas como entraria somente com o "corpo" e meus equipamentos -o caiaque duplo foi viabilizado por um fabricante de santa catarina- resolvi aceitar. Entre a data do  sim e a saída da remada, havia apenas 3 semanas de preparação e muita correria de agenda para acertar. No final, assim como ocorreu no Xingu, tive 3 dias de treinamento e a oportunidade de remar apenas 1 dia. Ou seja, seria novamente um grande desafio.

Para essa aventura resolvi chamar meu filho mais velho, o Kauê, 21 anos, estudante de economia e que nunca tinha participado de uma expedição ou remado em um caiaque oceânico (precisava garantir alguém com bastante energia! haha). Resolvi levá-lo por vários motivos, mas o principal, foi a história dele: Há 6 anos, ele passou por um transplante de medula devido a uma leucemia extremamente agressiva, recebendo a medula do seu irmão mais novo e com alto risco de morte no processo de recuperação. Essa viagem seria uma grande oportunidade para ele ,como desafio e superação, e para mim como pai, em conviver por 7 dias seguidos com meu primogênito que estive tão perto de perder. Abro aqui um comentário: como a maioria dos pais, ter um filho nesta idade é ter poucos momentos de convivência, não por não querer, mas pela intensa correria da vida de ambos. Já a expedição seria o oposto disso; convivência 24 horas! E vou lhe dizer, a experiência e a jornada foram lindas!

E porque das "dores, alegrias e aprendizados"? Para quem nunca fez uma expedição de atividade esportiva de longa duração, outdoor ou não, é preciso deixar claro que na verdade, bem lá no fundo, é um empenho e tanto! Você passa frio/calor, restrições alimentares (pela falta de espaço e limite de peso), exige além do limite do corpo pois há um objetivo a ser alcançado, além da convivência em grupo (que muitas vezes devido a todo o contexto, gera conflitos e embates). Ou seja, não é fácil, porém, é extremamente gratificante, e até mesmo viciante. Passar por desafios do "novo e desconhecido" com algumas cargas de adrenalina e dificuldades, libera (no meu caso) altas doses de energia e motivação. Cria uma coragem para viver acima da média. No pain, no gain, baby!

Ao entramos no 1º dia da expedição, o trajeto entre Iguape e Pedrinhas (comunidade da Ilha Comprida) foi bem tranquilo. Maré a favor, pouco vento e uma temperatura na casa dos 20º graus, 32 km de remada e uma parada numa pequena igreja escondida no meio do trajeto. Mas no 2º dia, bah! Pensa num dia lazarento e difícil. A etapa entre Pedrinhas/Cananéia/Ilha da Casca, era o maior trecho da remada, 38 km, pegamos maré contra, vento com rajada contra, chuva e frio! Ficamos 9 horas remando quase sem parar, e a temperatura às 16h (sensação térmica) era próxima dos 8º graus. Esse foi o dia da dor. Não aguentava mais remar. Tanto eu como o Kauê, estávamos cansados, com fome, com frio e estressados de estar naquela situação. A gente não falava mais, não saía mais voz, só um grunido animalesco entre os dois (hahaha, lembrando agora dou risada, mas na hora foi de
xingar). Às 18:30, já na escuridão, localizamos uma pequena ilha rochosa que seria a nossa pernoite. Santa Ilha da Casca.

O 3º dia foi o trecho mais bonito e mágico da viagem! 21 Km de remada (fizemos em menos de 5 horas) entre Ilha da Casca e Marujá (comunidade da Ilha do Cardoso). Maré a favor, pouco vento e temperatura amena. A etapa é linda, o trecho mais bonito do Canal do Varadouro! Vimos muitos botos nadando ao lado do caiaque, tartarugas, biguás, garças e peixes pulando para fora da água. Água espelhada, calma e de uma tranquilidade quebrada as vezes só por algumas voadeiras. Esse foi um dos dias da alegria, tivemos vários nos dias seguintes, mas esse marcou a todos, pela beleza, preservação e a natureza intocada. Tive a oportunidade de observar ao Kauê, parado, olhando tudo ao redor com uma contemplação nos olhos que ainda não tinha visto. Lá dentro dele, a minha sensação era que ele estava absorvendo toda a energia daquela natureza intacta de forma a recarregar suas baterias e sua garra pela vida, depois de ter passado por uma luta que poucos passaram. Essa minha sensação de pai de observar aquilo que nos é mais precioso -nossos filhos- e sua felicidade nos olhos, é a alegria do puro amor, do querer bem!

O 4º dia foi tranquilo, já o 5º... tivemos a etapa entre Sebuí e Ilha das Peças, uma travessia que pra mim, foi difícil. Tinha me preparado mentalmente para uma travessia de 19 Km e que por uma falha de comunicação da equipe, foi de 27 Km. Você pode estar pensando que 8km a mais não é nada, mas numa travessia de caiaque essa diferença, dependendo da condições, pode ser mais de 3 horas dentro do caiaque ou mais 7.200 remadas (se rema tranquilamente 40 remadas/minuto). E isso faz toda a diferença no preparo; desde a hora que acorda (devido ao tipo de café que toma) até a hora da chegada (no preparo dos lanches e paradas que fará ao longo do trajeto). Me preparei para um cenário X e o cenário foi Y. Cheguei meio irritado com a equipe, mal-humorado da fome e do frio (tinha me equipado para remar até meio da tarde e chegamos no final do dia com temperatura bem
mais abaixo), ou seja, estava naquele dia de pouquíssimo amigos. E foi desse episódio que saiu um dos maiores aprendizados da expedição. Não vá pensando que é o clichê que todos usam de "esteja preparado para o inesperado". Isso já virou frase pronta, porém poucas pessoas internalizam ou lidam bem com essa situação quando ela realmente acontece. Fiquei tão chateado com os fatos, que compartilhei minha frustrações e irritações com o Kauê, tratando de igual para igual (ser humano para ser humano) e ele, na sabedoria dos seus 21 anos de vida (e de uma alma amadurecida pela dor), começou a conversar comigo colocando que o inesperado, o não planejado e as dificuldades que a vida nos apresenta em cenários inesperados, tem a sua beleza e poesia, visto que não fosse isso, jamais poderíamos evoluir, e que em uma etapa desta -mais difícil que imaginei- a responsabilidade da frustração não era do grupo, mas minha, somente minha. Justamente por ter olhado somente por um ângulo o problema e não visto que ao lado, o problema era na verdade uma beleza, afinal, o que importava era a jornada e os sentimentos que poderia direcionar para serem bons ou ruins.

Tudo era uma questão de perspectiva! Que porrada eu tomei. Na casa dos meus 45 anos, com muito chão corrido, muitos problemas passados, percebi claramente que aquele pequeno ser humano, estava me ensinando uma das coisas mais legais na prática: Transformar um problema em somente um obstáculo.

Obrigado filho, como você disse "foi mágico do nosso jeito". Juntos aprendemos, nos descobrimos e nos conectamos ainda mais para enfrentarmos unidos, essa jornada louca que chamamos de vida!

"Nunca é tarde para ir mais além, nunca é tarde para tentar o desconhecido." Gabriele D'Annunzio

 

Marcelo Figueiral