Eu Consigo Fazer Uma Trilha Difícil?

Falando sobre a classificação de dificuldade de trilhas

Uma questão recorrente quando falamos em trilhas e caminhadas é: qual a dificuldade das mesmas? Perguntas sobre se a trilha é “pesada” ou “leve” são comuns, mas classificá-las não é tão fácil. Isso porque as dificuldades (ou a percepção da dificuldade) variam de pessoa para pessoa. O que para Chico pode ser fácil ou leve para Francisco pode ser difícil ou pesada. Mas mesmo sendo subjetiva, a classificação é possível se elencarmos alguns parâmetros para que possamos saber o que nos espera quando resolvemos “sujar a bota”.

Tipos de Trilha

Antes de começar a falar sobre classificação é bom explicar que temos três tipos de trilha:
  • Trilha simples ou apenas trilha: quando a ida e a volta se dão pelo mesmo caminho. Ex: Trilha do Itapiroca
  • Travessia:  trilha que o início e o fim se dão em lugares distintos. Ex. Nascentes do Tibagi.
  • Circuito: quando uma trilha começa e termina no mesmo local, mas seguindo por caminhos diferentes. Ex. Circuito Torre Amarela – Canal

Classificação

Tendo em mente os tipos de trilha podemos classificá-las. Irei utilizar a classificação elaborada pela FEMERJ – Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro, que é filiada a CBME – Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada, e, portanto, uma definição utilizada pela entidade que rege as atividades de montanha no Brasil, visto que existem várias outras classificações, tanto no Brasil quanto no exterior. Leia o documento elaborado pela FEMERJ.

Características biofísicas

As trilhas são classificadas de acordo com as suas características biofísicas (aclive, declive, tipo de terreno, obstáculos), graduando-as conforme 4 parâmetros:
  • Esforço Físico: avalia o nível de esforço físico necessário para cumprir o percurso em função de parâmetros específicos.
  • Exposição ao Risco: avalia a dificuldade do trajeto em relação ao nível e à frequência de exposição a riscos.
  • Orientação: avalia o grau de dificuldade para o usuário manter-se orientado na trilha.
  • Insolação: avalia o percentual de exposição ao sol
A classificação das trilhas utiliza os 4 parâmetros em conjunto, ou seja, uma trilha pode exigir pouco esforço físico, mas ter uma grande exposição ao risco, orientação fácil e baixa insolação. Vamos falar mais sobre cada um deles.

Esforço físico (Classificação Básica):

Avalia o nível de esforço físico necessário para cumprir o percurso em função de características específicas da trilha (duração, percurso, desnível, obstáculos e piso/terreno). Em relação ao parâmetro de esforço físico, essa classificação divide as trilhas em 8 níveis, iniciando em “Leve” e terminando em “Extra Pesada”. O oitavo nível desta classificação é referente a trilhas de “Longo Curso”, que é um nível que indica um tipo de trilha em particular. A Classificação Básica representa o esforço para realizar determinada trilha e não o nível técnico da mesma. Quando houver algum trecho técnico, como uma passagem de cabo de aço, ou algum lance de escalada, é necessário informar a graduação do lance de escalada juntamente com a Classificação Básica.

Exposição ao Risco:

Avalia a dificuldade do trajeto em relação ao nível e à frequência com que o caminhante é exposto a situações de perigo (Evento de Risco). Este parâmetro é dividido em 4 graus de exposição (Pequeno, Moderado, Severo e Crítico), onde o aumento do grau está relacionado diretamente com as consequências/probabilidades que um evento de risco aconteça. Alguns tipos de riscos a que somos expostos em trilhas: Tropeções, torções, escorregões e queda. Fenômenos atmosféricos (tempestades, raios, nevoeiro, vento, frio, calor etc.). Ataques de animais, picadas de cobras, insetos ou outros animais peçonhentos. Travessias de rios caudalosos. Trechos com exposição a altura, lances de escalada, etc… É importante salientar que o grau de exposição está relacionado com a capacidade técnica ou experiência de cada pessoa. Por exemplo, a escadinha do PP, que para alguns é tranqüilo, para outros nem tanto… Aqui na AWT&A procuramos elaborar roteiros que tenham um nível de exposição ao risco de pequeno a moderado. Quando propomos roteiros de risco maior, temos o cuidado de eliminar o máximo possível situações de força maior como condições climáticas. Além disso, temos acompanhamento da equipe de guias que possuem treinamento em resgate e primeiros socorros. Na eventualidade de um acidente, todos os roteiros são cobertos por seguro pessoal.

Orientação:

Avalia o grau de dificuldade para o usuário manter-se orientado e leva em consideração características específicas da trilha como sinalizações, bifurcações, definição do leito, referências de orientação (acidentes geográficos), vegetação (vegetação fechada ou não) etc. No caso  da AWT&A este parâmetro não é utilizado, visto que todas as trilhas realizadas por nós contam com pelo menos dois guias experientes além de fazermos o reconhecimento prévio do percurso.

Insolação:

Avalia a disponibilidade de sombra ao longo da trilha, indicando a percentagem do caminho que o Sol permanece descoberto, brilhando sem anteparos. Parâmetro não obrigatório, usado mais em placas, artigos técnicos e guias de trilha. Serve para informar aos usuários o percentual de exposição de sol de uma determinada trilha.

Classificação de trilhas

Qual a dificuldade dos nossos roteiros

Dada as definições, vamos ver alguns exemplos de como utilizamos na prática. Como falado, os parâmetros orientação e insolação não são utilizados em nossas classificações, a não ser quando o mesmo pode se tornar severo. Exemplo: a insolação no Quiriri (Trilha do Marco da Divisa) visto que a mesma não dispõe de nenhuma sombra, sendo necessário tomar medidas paliativas (chapéu, protetor solar, manga comprida, etc…) sob o risco de insolação. A trilha do Pico Paraná é considerada pesada com grau de exposição severo. Apesar de ter apenas 7 km,  tem grande aclive e declive (acima de 800m até 1200m), piso irregular com muitos obstáculos, é necessário o uso das mãos para manter o equilíbrio e/ou ascender, e o trajeto leva de 8 a 10 horas. Já a trilha do Itapiroca (6 km, aclive e declive acima de 800m até 1200m, piso irregular com muitos obstáculos, uso das mãos para manter o equilíbrio e/ou ascender, tempo de 6 a 8 horas) é pesada com grau de exposição moderado, pois não passa pela escadinha e o trepa-pedra do PP. Vamos ver uma trilha moderada: Trilha da Cachoeira da Paulina. Tem até 12Km, duração de 2 a 4 horas, desnível de até 200m com obstáculos e piso irregular. Veja que o desnível dela não é grande, e por este parâmetro ela seria uma trilha leve, mas os demais parâmetros (duração, percurso, obstáculos e Piso/terreno) a elevam a categoria moderada. Como podemos ver o que determina se uma trilha é leve, leve superior, moderada, moderada superior, pesada, pesada superior ou extra-pesada é quando a maioria dos parâmetros da classificação básica se encaixam na descrição, mesmo que um ou dois itens pertençam a outra categoria. O mesmo é usado na classificação do risco: será usada a classificação do maior risco que existe na trilha, mesmo que ele seja pontual e único.

Caminhadas rurais

Como vocês notaram, até agora falamos de trilhas, mas aqui na AWT&A também fazemos caminhadas rurais! E como diferenciar trilhas de caminhadas rurais? Na maioria das vezes uma caminhada rural vai ser leve, leve superior ou moderada, pois o desnível geralmente é baixo, poucos obstáculos e piso regular. O que vai diferenciar é o tempo e a extensão da caminhada, que varia de 4 a 6 horas de caminhada num total de 10km a 15km. Vejam que estes dois últimos parâmetros classificariam a caminhada como moderada superior, mas os parâmetros desnível, obstáculos e piso/terreno são de uma caminhada leve. E porque eu escrevi tudo isso e você leu até aqui? Para que você, cliente amigo, saiba o que te espera quando descer da van e colocar a mochila nas costas! Assim a caminhada será muito mais prazerosa, sem grandes surpresas ou infortúnios. E não se esqueça, que sempre que possível temos um carro de apoio (geralmente nas caminhadas rurais) que poderá te dar uma carona quando a coisa apertar… Espero que esta leitura deixe você mais confortável na próxima vez que for conosco e veja a classificação extra-pesada!!!! “Vai ser moleza!!!”, “o cume é logo ali”, “esta é a última subida” e “só faltam 5 minutinhos”… Bom, papo de guia a parte… Saibam que todos podem tirar todas as suas dúvidas conosco, através de nossos canais de comunicação. Fiquem à vontade para perguntar, teremos o maior prazer em ajudá-los. Esse e outros relatos você encontra em Anawanke.com